Texto-perfil, o filho da Biografia

Facilmente confundidos, os dois tipos de produção literária apresentam diferenças entre si. Enquanto a Biografia detalha uma história completa, o Perfil capta momentos marcantes

Ao escrever um Texto-perfil, ou Perfil jornalístico, o repórter pode, sim, abandonar o velho lead e a pirâmide invertida. Pois ficará ao seu critério como organizar os melhores momentos da vida do protagonista – o enfoque do texto é inteiramente neste.

Alguns autores, então, caracterizam esse modelo de composição como uma “Reportagem narrativo-descritiva“, já outros, como uma “Biografia curta“. De qualquer forma, ela vai reunir, sem dúvidas: histórias, descrições e bastantes relatos.

Perfil jornalístico X Biografia

A Biografia fica responsável por relatar, detalhadamente, toda a história de uma pessoa. Dessa maneira, trata-se de uma narrativa longa. Já o Perfil, por reunir os momentos que marcaram a vida do perfilado, é mais curto, baseando-se na Jornada do Herói – em que todas as luzes do cenário são voltadas ao personagem principal; não sendo uma ousadia afirmar que ele é onipresente, certo? Guarde a ideia de que a Biografia é a mãe do Texto-perfil.

Ao escrever um Perfil, o que exatamente está sendo feito?

Com toda certeza, o escritor(a) aceitou captar a essência, o caráter e a personalidade de alguém que julgou importante, por n motivos. Aqui, não tem essa de “Mas ***** não é notável social ou midiaticamente”. Ao perfilar, quem está com a caneta nas mãos, decidiu ouvir, observar e refletir sobre a história de vida de uma pessoa. O mundo é repleto de experiências incríveis, meu caro leitor(a)!

Em nosso quarto semestre do curso, na disciplina Oficina de Redação, tivemos a oportunidade de elaborar um Texto-perfil (com, no mínimo, cinco depoimentos, tá?). E… adivinha só quem deveria ser o protagonista da história? Nós mesmos! Um complexo desafio, mas muito excitante. Na íntegra, você confere como foi para a graduanda de Jornalismo, Sheila Ferraz, soltar o verbo sobre si mesma:

Sheilari: Como foi, na prática, entender realmente do que se trata um Perfil jornalístico?

Sheila Ferraz: Essa elaboração textual me surpreendeu muito (risos). Foi-nos entregue o desafio de compor um retrato escrito sobre nós mesmos, com a participação de, no mínimo, cinco pessoas influentes em nossas vidas; que nos conhecessem bem. O processo foi incrível, e o resultado, surpreendente! A nossa professora Guaíra Flor, responsável pela orientação do trabalho, sempre nos desafia com suas propostas.

Frase retirada do Perfil da Sheila. Imagem: Sheilari/Reprodução

Sheilari: Houve um choque positivo ao se deparar com a sua estrutura textual; ao ler os depoimentos sobre si mesma?

SF: Com toda certeza! Partes do nosso – meu e da Lari – texto ficaram idênticas; a forma de iniciar e o momento em que a Larissa fala sobre mim. Isso me impactou bastante quando resolvemos mostrá-los uma para outra, eu até mandei um áudio chorando para a Lari. Por estarmos de quarentena, a saudade aumenta e, naquele momento, tudo que eu queria era dar um abraço nela. (sic)

Sheilari: Quanto ao resultado final do trabalho, incluindo todo o processo de apuração e escrita, qual é o seu sentimento em relação à experiência?

SF: Foi como percorrer pela nossa própria história de uma maneira leve, divertida e altamente reflexiva, pois conseguimos explorar bem a ótica dos nossos amigos em relação a nós mesmos. Amei compor cada parágrafo! A cada parágrafo, um aprendizado; posso dizer que foi um processo de autoconhecimento também. Sem dúvidas, o Perfil foi um dos melhores trabalhos da minha vida.

Frase retirada do Perfil da Larissa. Imagem: Sheilari/Reprodução

Abraçar esse gênero, então, é poder, também, trabalhar metáforas capazes de conquistar a atenção de quem se propõe a ler a obra. O prazer na leitura deve estar nítido, por meio de vocábulos, termos e, claro, da estrutura, que se preocupa em humanizar, carregando abordagens reais em uma certa ordem.

Demandas do profissional ao escrever um Perfil

Antes de tudo, a ideia é organizar aquilo que se desejar lembrar, afinal, há um recorte de experiências vividas. O título, assim, requer uma atenção extremante especial, comportando-se como um farol. Sim! Ele deve guiar a leitura e despertar, no leitor(a), a vontade de prosseguir. É, ainda, uma espécie de convite intuitivo.

O filho da Bio é um processo de investigação, cujo fim não se dá na entrevista com o personagem. É preciso ouvir quem o cerca, visitar lugares frequentados por ele. Assim sendo, a produção se torna relevante pela sua durabilidade e narratividade.

Perfil, uma execução de entrega

Apenas escrever não basta. O repórter realiza um verdadeiro trabalho de entrega, que engloba uma honrosa apuração: Ele pesquisa. Ele se movimenta. Ele conversa. Ele observa. Ele reflete. Algumas notáveis revistas norte-americanas que se dedicaram ao perfil jornalístico: The New Yorker, Esquire e Vanity Fair. No Brasil, a Cruzeiro, a Realidade e a Sr. também toparam a aventura.

Melhor do que reiterar veículos, é destacar nomes: Lincoln Barnett, Lillian Ross, Susan Orlean e Gay Talese – este último compôs Frank Sinatra Está Resfriado, o Perfil mais lido no mundo. Uma das peculiaridades da obra é que, não, Talese não conversou com Sinatra. Tudo que coletou foi com base em relatos de amigos, conhecidos, visita a lugares que o personagem frequentou, entre outros.

O porquê do sucesso? Porque o Perfil foi sustentado sob quatro pilares cruciais: espaço, tempo, circunstância e relacionamento. O jornalista e escritor esteve aberto à curiosidade e a surpresas (a primeira, quando teve de lidar com a ausência física de Sinatra, que, por sua vez, estava resfriado). 

Até a próxima, queridinh@s da Sheilari!

Por: Sheila Ferraz e Larissa Azevedo

Referências e links: Blog Folha de São Paulo, Sergio Vilas-Boas, Agência Enlink, Rock Content e Portal Educação