IN MEMORIAM

Por: Cecília G.

Era uma quinta-feira nublada, numa Terra sem Covid – ainda. Levantei da cama desejando não ter acordado naquele dia. A irritação se dava pelo fato de eu não querer ir trabalhar. Me sentia cansada, mesmo tendo passado todo o feriado de Carnaval em casa vendo filmes repetidos, pensando na famosa morte da bezerra. 

Estava com sono, mas não conseguia pregar o olho, já que estava preocupada previamente com os trabalhos da faculdade que teria que resolver no fim de semana. Escolhi uma blusa branca com listras coloridas – em um mês de trabalho eu já deveria ter repetido a roupa umas 15 vezes – um jeans preto e minha sandália de sempre.

Minha mãe me levou à estação de metrô e me incentivou. Eu havia começado a trabalhar em um lugar invejável para o currículo de um estagiário do 5º semestre. Fato. Eu estava mal humorada, mas ri, dei um beijo na bochecha dela e entrei na estação. 

Bocejo. Bocejo. Bocejo. Bocejo. Bocejo. Bocejo. Bocejo. Bocejo. Bocejo. 

Eu mais bocejava do que esperava o trem. O relógio já marcava as 15h50. Do meu lado, havia um senhor franzino e ansioso. Não parava de mexer a perna. Ele carregava uma sacolinha de mercado com pedaços de pano dentro, parecia que ia rasgar a qualquer momento, de tão fina que era. 

Assim que o trem parou na plataforma, eu entrei e me sentei na janela, em frente ao banco preferencial. O velho franzino entrou em seguida e sentou ali. Coloquei os fones de ouvido e fechei os olhos, respirei fundo e apreciei o clima ameno. Eu estava adormecendo quando fui acordada por um toque leve no meu joelho. 

Era o velho franzino. 

Tirei o fone de ouvido e curvei meu corpo para entender o que ele falava, era quase um miado de tão baixo. 

– Quando eu era jovem, chovia todo dia nessa época do ano – Ele afirmou animado e apontou para a minha janela.

Estava chovendo.

Educadamente, eu sorri e voltei a colocar os fones de ouvido, me aconcheguei no banco e novamente ele encostou no meu joelho. Ai, Deus, que dia. O idoso começou a falar sobre a história da Ceilândia, cidade onde nós dois moramos. 

Ele estava desde o início, quando a cidade ainda nem tinha esse nome. Ele falou sobre a juventude. Nunca casou. Nunca teve filhos. Desde que se entende por gente, era ele e a irmã, mais nova poucos anos. A irmã também nunca casou e nunca teve filhos, ambos sozinhos na caminhada de viver. 

Para quem conhece meu jeito, sabe que gosto de rir à toa. Como diz o meu irmão, a cada três palavras, eu solto uma risada. Desde sempre fui assim. Não existe uma pessoa, que me conheça, que nunca ouviu a minha risada. E era assim que eu respondia todos os comentários que ele fazia, com risinhos e por vezes algumas perguntas, como: 

–  É mesmo?

Ele me explicou que vivia em um lote com duas casas, uma dele e da irmã, a outra, da melhor amiga. Eu sorri, sempre achei amizade entre idosos algo pouco falado, já que todos os velhos são usados como referência para avós e avôs. Ele sorriu, olhou para a sacola. 

– Ela morreu na sexta. – Ele disse, e na hora o meu sorriso sumiu. 

Eu não sabia o que fazer, não sabia o que dizer, não sabia onde enfiar a cara. Ele percebeu minha expressão, e foi questão de segundos até que ele desabasse na minha frente. O velho franzino chorou, chorou e chorou. Foi um choro calmo, calado e calejado. 

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Dona Maria era deficiente intelectual e sempre foi rejeitada pela família. Nascida no Maranhão, veio para a cidade de Ceilândia quando tinha mais ou menos 40 anos. Começou a morar com as irmãs. 

Anos depois, Maria conseguiu um emprego de serviços gerais e teve o desejo de morar sozinha. Afinal de contas, a rejeição das irmãs, devido ao jeito diferente da senhora, tornava a convivência muito pior. 

Com tanta procura, Maria achou uma casa pequena que dividia lote com outra residência. Ela bateu no portão uma, duas vezes, na terceira, quase desistindo, uma senhora atendeu a porta. Ela mal sabia que ali uma amizade de longa data se formaria. 

Maria se apresentou, contou toda a história da vida dela. Achava um máximo dizer que vinha do Maranhão e que tinha conseguido um emprego de limpeza em Brasília. O maior orgulho dela era conseguir trabalhar, mesmo que ninguém acreditasse no potencial que carregava. A senhora disse que ela poderia alugar a casa e explicou: 

– Eu e meu irmão moramos nessa outra residência – Ela apontou para a maior casa do lote e continuou – A gente não tem filhos, não tem netos e muito menos esposo ou esposa. Somos só nós dois. – A senhora riu como se tivesse contado uma piada muito engraçada. 

Maria amou a ideia e concordou, afinal de contas ela também não tinha filhos, consequentemente não tinha netos e muito menos algum parceiro amoroso. Na realidade, ela nunca pôde amar alguém dessa maneira. As pessoas eram intolerantes com ela. 

Quando Maria se mudou, as coisas mudaram o rumo da vida. Nas primeiras semanas, ela estava desolada, não sabia viver sem o apoio das irmãs. Aí foi quando a amizade surgiu – os irmãos jogavam dominó todas as noites na área externa da casa. Ela começou a frequentar a famosa noite de jogos. 

Todos os dias, de domingo a segunda. Os três se reuniam na área de casa para jogar, beber um vinho barato e ouvir músicas dos anos 70 e 80, que relembravam a juventude e os tempos difíceis de migração. Era quase como sagrado. Se um dia um deles não participasse da noite de amigos, era porque estava doente. 

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O velho olhou no fundo dos meus olhos: 

– Ôh, minha filha, eu amo ela e já tô sentindo muita falta – Naquele momento, eu havia me esquecido do cansaço, dos trabalhos da faculdade e de qualquer outra coisa que estivesse fora daquele núcleo. 

Ele abriu a sacolinha e tirou um vestido e uma roupa íntima dali, seriam as roupas que dona Maria iria usar no enterro. Ela iria descalça, pois não tinha um sapato que ele pudesse escolher para ela. O vestido, extremamente comum, em preço de mercado deveria custar uns 20 reais. 

A melhor amiga seria velada pelo Serviço Social. Os irmãos contavam apenas com dois salários mínimos por mês, então um enterro não caberia no orçamento. As irmãs de Maria não queriam se envolver no evento fúnebre, o que deixou o velho franzino muito triste e inconsolável. Ele dizia que ela merecia muito mais. 

O velho abriu o vestido no meio do vagão e sorriu:

– Esse é o vestidinho mais lindo dela, foi eu que escolhi. As outras roupas não são boas, sabe?

Ele se sentou novamente e tirou a carteira de identidade dela, entregou na minha mão, para que eu visse o rosto da saudosa amiga. Dona Maria era negra, de cabelo crespo e bem gordinha, na foto da identidade estava com o cabelo amarrado. O documento parecia muito antigo, mas algo me chamou atenção. 

O nome da mãe dela era “CECI”. Naquele momento, eu senti minha perna tremer, por algum motivo vi naquilo um sinal. Eu não estava ali à toa. Meu nome, Cecília, foi escolhido pela minha mãe por motivos de: Não era comum em 1999, só senhoras com mais de 60 anos tinham esse nome e, ainda por cima, é nome de santa. 

O mais estranho é que a mãe de Maria não era Cecília e, sim, CECI. Com 4 letras e sem nenhum acento.

– A mãe dela tem o mesmo nome que o meu – Foi a única coisa que consegui dizer diante de tantas coisas que ele havia me contado.

O velho sorriu e delicadamente pegou o documento da minha mão. 

Apesar do desabafo, ele estava inquieto. A essa altura, já estávamos na estação Shopping, Plano Piloto. Era necessário chegar à Secretaria de Justiça para resolver um trâmite de documentação que havia dado errado. Dona Maria já estava há seis dias dentro do refrigerador do hospital de Ceilândia. Ela havia morrido na sexta de Carnaval, o feriado emendou e o Serviço Social havia se esquecido de retirar o corpo dela para o sepultamento. 

Não consegui perguntar o que levou dona Maria à morte, mas entendi que ela tinha alguns problemas de saúde. Diabetes, bronquite e também um problema de visão, no qual nem o velho franzino pôde me explicar. 

Ele se despediu de mim com um aperto de mão, me agradeceu e disse: 

– A gente tem que aproveitar o nosso tempo de vida, com quem a gente ama. Porque, uma hora, a pessoa vai embora.

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Depois desse dia, passei a refletir mais sobre as coisas da vida. Sobre as pessoas que a gente ama, sobre a convivência que nos leva a considerar alguém que nem tem o mesmo DNA que o seu. 

Quando eu já estava me esquecendo da história, minha tia faleceu. O câncer a levou da gente, mas ela descansou. Lutava contra o tumor há muitos anos. E, novamente, quando estava esquecendo do que o velho havia me dito, outra tia minha se foi, cinco meses depois do meu encontro com ele.  

Ela era minha tia de consideração, uma das melhores amigas da minha mãe desde antes de eu nascer. A morte dela me fez lembrar da dor que o franzino sentiu com a perda de dona Maria. Uma dor que com o tempo vai se curando. No meu caso, parece que se passaram poucos dias. Porque ela ainda tá aqui, às vezes ainda sonho com o batom vermelho e a voz aveludada dela.

A perda de alguém é um dos piores momentos da vida, na minha opinião. Apesar do enorme lado ruim, isso faz com que a gente enxergue o que não podemos deixar de viver com quem ainda está aqui.

Viva. Ame. Sinta. E não se esqueça de jogar dominó de vez em quando. 

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