Aqui, o sujeito negro, ao falar de si, fala dos outros e, ao falar dos outros, fala de si
Maria da Conceição Evaristo de Brito cresceu cercada pela literatura. Nascida em Belo Horizonte, Minas Gerais, em 29 de novembro de 1946, e de origem simples, possui obras inspiradas no cotidiano e na história do povo afro-descendente. A contista foi a primeira de sua casa a obter um diploma universitário, tendo, hoje, ao todo, sete livros publicados, sendo quatro traduzidos para o Inglês, Espanhol e Árabe.
Mesclando ficção e realidade em suas composições, Conceição declara gostar de usar, em seus textos, palavras do cotidiano, enriquecendo-os com os dialetos mineiros – pronto! aqui se definiu o que vem a ser sua escrevivência. Aos 40 anos de idade, começou a publicar contos e poesias na antologia de literatura afro-brasileira, procurando, então, apontar sua escrita com experiências pessoais e coletivas, sob um olhar sensível.

Uma dos seus livros mais conhecidos foi o romance Ponciá Vicêncio. Segundo ela, a história retoma todo o processo de escravização que os ancestrais da personagem principal passaram, e isso se funde no presente. O exemplar foi publicado também nos Estados Unidos, em 2007, e foi leitura obrigatória para o vestibular da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em 2008.
A romancista, por meio da sua militância literária, dá voz aos negros e às mulheres vítimas do machismo; das violências física e psicológica, sendo essa a marca de todo o conteúdo que produz. São um verdadeiro tesouro achado, tanto a sua história de vida, quanto suas obras. A literatura da poeta visa fugir da literatura que estereotipiza, buscando sempre gritar com orgulho a identidade negra.
“O movimento da escrita é um movimento da própria vida, é um movimento que você faz pra vencer a dor, ou para vencer a morte… É o espírito de sobrevivência.”
(Conceição Evaristo)
O Sutiã, também conhecido como “linha fina”, deste texto foi exatamente a vinheta de um Podcast (Militância Literária) que fizemos, para a disciplina Oficina de Redação, no quarto período do curso. O porquê da escolha? Porque ele é forte e define o impecável trabalho desempenhado pela escritora brasileira Conceição Evaristo, que mantém a leitura e a escrita, há muito tempo, como algumas de suas principais aliadas, embora, devido à rotina, ainda não sejam sua primeira prioridade.
Para finalizar, fazemos, como ela, um apelo a você, caro leitor(a): “Não apenas leia sobre Conceição. Consuma Evaristo!”. Confira o resgate do eu lírico, em um tom otimista para a nova geração de mulheres negras, quanto à sua ancestralidade, ao falar das mulheres que a precederam, todas com uma história de opressão por serem negras e pobres:
Vozes-mulheres
A voz de minha bisavó
ecoou criança
nos porões do navio.
ecoou lamentos
de uma infância perdida.
A voz de minha avó
ecoou obediência
aos brancos-donos de tudo.
A voz de minha mãe
ecoou baixinho revolta
no fundo das cozinhas alheias
debaixo das trouxas
roupagens sujas dos brancos
pelo caminho empoeirado
rumo à favela
A minha voz ainda
ecoa versos perplexos
com rimas de sangue
e
fome.
A voz de minha filha
recolhe todas as nossas vozes
recolhe em si
as vozes mudas caladas
engasgadas nas gargantas.
A voz de minha filha
recolhe em si
a fala e o ato.
O ontem — o hoje — o agora.
Na voz de minha filha
se fará ouvir a ressonância
O eco da vida-liberdade.
Nesta produção, não chegamos a perfilar Conceição, afinal, entre outros aspectos, não coletamos depoimentos sobre ela nem mesmo a entrevistamos. Convidamos você, então, a entender sobre o conceito de Texto-perfil.
Até a próxima, queridinh@s da Sheilari!
Por: Sheila Ferraz e Larissa Azevedo
Referências: Literafro, Enciclopédia Itaú Cultural e Podcast – Militância Literária